“As grávidas ficam lindas”. Pra mim é balela. Sério. Eu não tô inchada nem estou uma baleia. Pelo menos não ainda. Mas já começo a me locomover como um pato e, falando muito sinceramente, às vezes sinto vontade de me jogar no chão e rolar em vez de andar, pela praticidade da coisa. Quando alguém fala pra mim “você tá linda” eu entendo como “você tá ficando esquisita, mas é por uma boa causa e já, já passa”.
Vão voar milhares de ratos mortos em mim pelo que vou dizer agora, mas vou dizer porque defendo a democracia: pra mim, estar grávida está sendo super tranquilo. No fundo eu nem lembro que tô gestante e minhas fichas não caíram. Talvez (?) por isso eu não esteja bancando a fresca nem romantizando o evento. A vida continua (literalmente) e a barriga esticar, além de ser o milagre da vida se concretizando, causa uma dor estranha e bem doída. Mas disso ninguém fala. E que raiva que me dá. Quando fui pro google ontem pesquisar sobre essa coisa esquisita que tava sentindo na pança, ninguém foi capaz de dizer clara e objetivamente que doía, sim, que era estranho e que a tendência é que eu sinta isso ainda por um tempo. As falas são muito frufruzentas e viajandonas. Algo como “sinto minha barriga em conexão com o universo maior e por isso ao senti-la esticar, sei que é a mãe natureza agindo para que eu seja um bom lar para o meu filho. E as estrias serão a marca dessa luta que é privilégio de algumas mulheres vencer.”
Ah, Brasil, tá de sacanagem? Quem é que pede, por favor, que a mãe natureza providencie estrias abdominais? É lógico que eu quero ser um bom lar para o meu filho enquanto ele tá na fase inside, ok? Pelamordeus, que não me venham reclamar as xiitas da maternidade. Mas pra mim, que tava esperando ficar chorona e chata durante a gravidez, acho que até que tô conseguindo manter o mínimo de senso crítico pra detectar o que considero absurdo. Considero mesmo e acabou. Pronto, falei.

Prezado filho

Me disseram que a partir de agora você ouve coisas. Tipo meu intestino funcionando, meu fígado soltando liquidos, essas coisas. Isso me fez entender porque bebês nascem chorando: ouvir esses barulhos por tanto tempo deve ser bem chato. Me desculpe, mas a fisiologia tem dessas coisas.
Você tem dois avôs. Um deles não me apresenta pelo nome, só informa que estou grávida de 5 meses, cheio de orgulho, e pronto. O outro se exibe como um pavão e agora me liga todo dia, coisa que ele não fazia nem durante minha adolescência frenética. Isso me faz compreender que fui resumida a uma carregadora de bebês. Ok, eu também me orgulho.
Todo dia me assusto com o tamanho do bucho. E quando você mete a mão ou o pé na minha cicatriz de apendicectomia a sensação não é mesmo das mais gostosas. Mas prometo parar de reclamar se você nunca mais chegar perto do meu umbigo. Pelo menos não de dentro pra fora, porque isso me dá vontade de arrancar o umbigo fora. Igualmente desagrádavel, eu quis dizer.
As pessoas agora cumprimentam você antes de falarem comigo. E chegam botando a mão na barriga como se fosse algo separado de mim, tipo uma invasão do espaço a mim reservado, sabe como? Este é o momento em que treino minha classe e minha cara de paisagem.
Seu pai, todo santo dia, diz pra você tomar conta de mim, um discurso que simboliza o paradoxo do nosso tempo. Ou o quanto eu tenho menos juízo do que um feto de 5 meses.
Estou ansiosa pela próxima ecografia, porque tá rolando um movimento de dúvida sobre a sua sexualidade. E digo isso com todo respeito, prezado filho. Mas querem conferir o que você tem no meio das pernas e eu sinto vergonha por você nessas horas. Até porque você mesmo se arreganhou todo e, pelo menos pra mim, não deixou dúvidas.
Gostaria muito que você mesmo escolhesse seu time de futebol, mas não conte isso pro seu pai. Pode dar divórcio. E todos queremos uma família unida, até porque é ele quem vai te colocar pra arrotar de madrugada. Mas deixe isso entre nós também.
Notícias sobre o mundo extra-útero seguem depois.
beijomechuta.

passado suspeito

22/10/2009

Entro no 5º mês de gravidez na semana que vem. Na chamada 20ª semana, falando na língua e na contagem das grávidas. Como a gravidez completa é de 40 semanas, tô no meio do caminho. Louvemos ao Senhor pela tranqüilidade da gravidez até aqui: eu não soube o que é enjôo. E meu filho, já sem compostura ainda na fase inside, mostrou logo que era um menino, assim, pronto acabou.
O 1º trimestre (que acaba não correspondendo exatamente a 3 meses, uma coisa muito louca que só os maias poderiam explicar) é esquisito e tenso demais porque a gente, inexplicavelmente, se lembra das aulas de biologia genética do 2º grau. Dá muito medo e, em alguns momentos o sentimento de incompetência bate bem forte. E a gente se aproxima de Deus, prometendo qualquer coisa só pra garantir que o rebento tá de boa. Promete não comprar mais DVD pirata. Promete parar de falar palavrão. Promete não comer nada com glutamato monossódico.
E o parto, né Brasil? Ainda tem o parto. Queria pular essa parte. Dormir e acordar com o moleque embrulhado, pronto pra mamar. Ainda não internalizei a possibilidade de me cagar toda na hora do parto. Não mesmo.
Este blog nunca foi sobre gravidez. Não começou por isso. Então eu pergunto: quando ele crescer eu mostro ou não mostro?
Eis uma das dúvidas nobres que permeiam a maternidade no mundo cibermoderno.
Oremos.

Eu gosto das informações informais sabe como? Eu curtia ‘Aqui Agora’ porque era tão real, mas tão real, que parecia tudo armado. A idéia de enxergar gente como a gente e poder deliberar e refletir sempre me atraiu, por isso fui viciada em Big Brother por muitos, muitos, muitos anos. Até que eu me casei e resolvi que não é confortável ficar assistindo marido olhar bundas alheias.  Então na hora do Big Brother eu leio. Ou durmo. Porque ler é melhor do que pedir o divórcio.
Com base nisso tudo, entrei numas comunidades de grávidas no orkut. Tudo corria bem até que resolvi seguir a sugestão de uma colega e olhar os vídeos de partos no youtube.
Pátria amada! Onde foi que eu assinei que queria parir daquele jeito? Não me lembro da audiência com o Divino em que falei ‘ok, Deus, topo demais ver um melão sair pelo buraco por onde passa assim, no máximo, uma uva, nasci pra isso’. Respeito demais a mulherada que topa muito o parto mais natural possível, mesmo achando que às vezes tem gente que defende o parto normal como se fosse um xiita e eu ache isso muito esquisito. Eu mesma preferia o parto normal. Preferia. Até ver o vídeos. Hoje eu não prefiro nada. Porque cesárea também não é bonito de ver, não, Brasil. Então eu escolho virar um canguru nos próximos meses. Assim eu carrego meu filho numa bolsa de pele do nativo australiano e, na hora que ele tiver formado, eu levo pro médico e pronto. Muito mais fácil. Tenho certeza que foi isso que combinei com o Divino e agora ele tá querendo me dar o golpe. Papai do Céu é meu brother, mas às vezes me dá muito trabalho.

Hoje eu fui fazer um exame de sangue de rotina, para medir minhas reservas de vitaminas e essas coisas que eu sempre achei que quanto mais eu tivesse no corpo, melhor. Ou que o excesso sairia no xixi e pronto, eu seguiria a minha vida sempre vitaminada e reluzente. Mas não, até pra isso existe limite, pátria amada.
Daí dirigi a minha pessoa recheada de ácido fólico e vitamina B12 para o laboratório. E laboratório é laboratório, né, Brasil? Sempre lotado, porque a gente gosta mesmo é de fazer exame, levar pro médico nem tem importância. Há um tom sisudo a frase “vou me atrasar pro trabalho porque tenho que fazer uns exames”. Fora as pessoas que usam o exame como desculpa pra faltar trabalho, mas esse é outro assunto.
Então que o laboratório tava lotado e em laboratórios existe a senha-preferencial-fura-fila-cintilante. E eu não tive dúvida. Foi o momento em que eu vi que existem ambientes que reconhecem o quão adoradas deveriam ser as fêmas humanas prenhas. Até o barulhinho do apito pra chamar os preferenciais é diferente, por aí já temos uma boa base da importância da parada, vocês hão de concordar.
E é lógico que nesse laboratório lotado havia uma criatura sem-mãe. Filho de chocadeira ou, pelo menos, nascido a forceps. Porque não interessa o quanto seu ciático dói, o quanto sua barriga começa a pesar, o quanto seus pés têm inchado e quanto tempo você terá que esperar pra vestir sua calça jeans manequim 38 da forum de novo: sempre haverá um ser de alma suína que acha que, não, você não está grávida. Só está com aquela bata de bojão de gás pra furar fila em laboratório. Ou porque você gosta de ver uma manada inteira de seres humanos te olharem enfurecida porque você pode, legalmente, furar a fila. Porque, sim, você pode entrar justamente na frente daquele ser, uma pessoa que ficou com sequela do forceps e, claro, um homem. Porque mulheres são terríveis e nervosinhas, mas na gestação todas se unem, porque pensar na dor do parto e na humilhação de não conseguir controlar seu próprio intestino na hora da força da parição alimenta a compaixão até das que não querem saber desse negócio de visita da cegonha.

Comecei a hidroginástica sagrada. Porque toda grávida que tá na moda faz hidroginástica, né? Eu cheguei toda me achando porque, como já malhava antes de embuchar, pensei que ia ser moleza aquela hidroterapia para a melhor idade. E como eu me lasquei, viu, Brasil? Porque quando a gente vê de fora pensa que se trata do maior exercício-blefe do mundo e, ouçam a titia, não é. Definitivamente não é. No primeiro dia, ao sair da piscina, senti meu sangue circular por partes do corpo antes desconhecidas.
A idéia era fazer ioga pra gestantes. Mas, gente, fala sério, quem me imagina fazendo ioga? Sejam francos. Aquilo acabaria com os meus nervos. Porque se você quer matar alguém agitado é só querer mostrar pra ele o benefício de uma vida equilibrada, calma, cheia de paz interior e chacaras em ordem. Eu mataria o professor com os golpes de muai tai que aprendi na época do tae fight. Porque era assim que eu me desestressava.
A grande questão da hidroginástica, alem de ser uma atividade física que finge ser boazinha mas não é, é o nojo que eu tenho de piscinas. Não importa se ela aparenta estar limpa, tenho nojo e ponto final. Por isso queria ser rica e fazer pilates. Pensando no meu momento descapitalizado eu soco a água, porque a água, sim, incauto, absorve o impacto e preserva as articulações.

Então que chegou o dia, né? Eu estava devidamente ornada com minha bata de mulé grávida convicta e cheia de si e fui no mercado, comprar legumes sem agrotóxico, porque tinha recebido meu tiquete-alimentação.
Comprei tudo na rapidez que meu horário de almoço no trabalho exige e me dirigi bela e garbosa para o caixa preferencial, aquele meu direito constitucional já mencionado neste blog.
Mas Brasil, eu vou abrir meu coração pra vocês: aquela fila é também para idosos e idosos dão muito trabalho.
Amo vôs e vós, ok? São figuras fofas, cheias de melancolia e saudade, adoro conversa de velhinho. E eles conversam muito, né? Porque eles já entederam o verdadeiro sentido da vida e sacaram que ter pressa é coisa de trouxa. No caso, coisa da gente. Você e eu, trouxas que somos. E eles são simpáticos, normalmente. Ou reclamões. E tanto os simpáticos quando os reclamões falam pra dedéu. E falam com os carinhas do caixa por horas e horas e horas. Enquanto você está lá, na fila, prenha (com um bucho pequeno, mas todo bucho enorme passa pela etapa do bucho pequeno e eu só estava exercendo meu direito constitucional de usufruir de filas preferenciais, ok?) esperando sua vez de ser atendida, sorrindo amarelo pro vovô conversador.
Então, vou mandar a dicazinha pra você que quer engravidar qualquer dia desses: a fila preferencial não é lá tudo isso quando o quesito é rapidez e agilidade. E você, que vai chegar na melhor idade todo tranquilão, indo passear no mercado e bater papo com os caixas, sugestão: chama a caixa pra tomar uma cerveja e bater um papo, gente!

Eu fui pra NY, né. Fui lá no buraco do WTC, senti aquele frio na espinha e quase que automaticamente orei por aquelas pessoas. Por todas as que habitam aquela cidade e não só pelos que morreram. Porque eles são pessoas muito esquisitas. Salvas as proporções do absurdo cruel de tudo que rolou, eu entendo quem os odeie. Eu mesma não os tenho na maior das estimas. Porque eles são grosseiros, umbigosos, se acham os melhores até mesmo nas coisas que são reconhecidamente uns losers e tratam qualquer um que não seja americano como lixo latino. Ou árabes que merecem a morte.
Turistas não são bem recebidos, longe disso. Pra passar no detector de metais, precisei tirar minha aliança e meu sapato. Porque eu sou terrorista, até que o detector de metais diga o contrário. ‘Claro’, você vai dizer, ‘eles ficaram traumatizados com o que aconteceu’. Não duvido. Mas será que alguém pensa que aconteceu o que aconteceu porque eles são assim, excessivamente cheios de si?
Ontem, assistindo um documentário sobre a versão oficial americana sobre o atentado, ouvi diversos americanos dizerem que queriam a guerra, queriam invadir todos os países árabes e matar todos. TODOS. Inclusive os inocentes, os que são gente boa, os imigrantes, os turistas. Porque eles generalizam. Assim como o Oriente faz com eles. Acompanharam?
Depois que voltei dos EUA, me sinto muito mais orgulhosa de ser brasileira. Este nosso país é bem bagunçado e nem sempre temos do que nos orgulhar. Mas aqui, ser humano é normal. A gente aprende lições de humanidade todos os dias. E pratica. Bem ou mal, a gente pratica. Eu lamento muito o que aconteceu com os novairoquinos no dia 11 de setembro. E esse tipo de coisa me faz pensar sobre o quanto a gente nem sempre tem muita habilidade pra aprender, mesmo que seja com a desgraça.

Grávidas pertencem a uma tribo universalmente auto-reconhecida, sabe como? Que nem os maconheiros, os motoqueiros, os marombeiros. Pertencem a um grupo próprio, com gírias particulares e bitolações típicas, se reconhecem de longe.
E assim como maconheiros, motoqueiros e marombeiros, muita gente parece estar grávida e não está.
Eu já sabia disso, claro. Mas é que a conexão com os outros seres humanos fica bem mais apurada, a gente entra numa onda zen de incluir geral, ter um milhão de amigos e então mais forte poder cantar, mudar o mundo, acabar com a poluição e com os produtos industrializados que contêm glutamato monossódico até o fim da gestação, essas coisas. E tem, claro, a concentração de sangue no baixo ventre, já mencionada e que tende a se concentrar, que deixa, sim, a gente mais lerdinha.
Hoje, na hora do almoço, eu no restaurante natureba, na fila pra pagar, pergunto pra moça ao lado de quantos meses ela está. Ela responde 1 ano e 9 meses. Eu fico bege, reclamo do calor e fim.
Porque ela já pariu a 1 ano e 9 meses e eu ainda chutei mentalmente que ela deveria estar de 6 meses. De gestação. Acompanharam?
Dicazinha do coração do dia: achou que alguém tá grávida? Elogie a bela forma da humana e fim. Sem detalhes. Sem conexão, sem reconhecimento de tribo. Pra evitar o mico, tá? Eu aviso porque sou legal. Eu sou lerda, mas sou muito gente boa.

Sabe aquele papo que você já deve ter ouvido sobre grávidas ficarem estabanadas, desligadas, esquecidas e com a capacidade de fazer pequenas contas de cabeça bem escondidnhas num lugar que só é revelado depois do parto? Não é conversinha pra boi dormir, não, Brasil, isso acontece.
Tenho que apresentar um dado que deporá contra a minha pessoa, mas é válido: eu nunca fui exatamente um primor de destreza. Acho que meu nível de estabanidade sempre esteve assim num grau 4, contando de 0 a 10. Mas ultimamente eu tô uma negação. Na hora de ligar a seta do carro eu me distraio e ligo o limpador de parabrisa. A tabuada, tão duramente decorada na 2ª série, agora se vê reduzida a um cálculo rápido na calculadora do computador. Tudo que envolve raciocínio rápido está demandando um tempo que faz com que o raciocínio saia da categoria do “rápido”.
E o sono, incautos? Votecontá, é aquele sono de velho, sabe? Encosta e já começa a pescar. Depois do almoço então, pátria amada, fico catatônica, letárgica e só “acordo” depois que a digestão está ok.
Não tô muito sensível, não. Na verdade eu tô é braba. Mas é bem braba mesmo. Gastura de tudo, respostas azedas na ponta da língua, tolerância zero, vontade de resolver tudo na porrada, sabe como? É porque a circulação deixa de privilegiar a cabeça e se concentra no baixo ventre, né? Foi o que me disseram. Mas não enjoei de nada. Daqui 10 dias acaba o chamado 1º trimestre e não enjoei com absolutamente NADA. Mas enjoei de algumas pessoas. Enjoei mesmo, de não conseguir ouvir a voz, a risada, nada, que já me invade aquela vontade de calar a boca do bípede humano na voadora, acompanharam?
Tomara que seja enjôo de grávida.
Enjoar de gente conta?