DAQUELAS COISAS QUE SÓ ACONTECEM COMIGO

por Kritz

Cena 01
Você beijando um fofudo dentro do carro. Na verdade você não ficou só no beijo porque perdeu o juízo e agora faz coisinhas dentro do carro dia sim, outro também. (‘Que feio falar disso num blog!…’ Nhé.)
Pessoas conscientes e antenadas nas estatísticas de gravidez na adolescência, aids, sífilis e micoses tipicamente pubianas usam camisinha.
Mas como eu já passei da adolescência há pelo menos 6 anos segundo o IBGE, tomo pílula, não tenho aids nem sífilis (porque pra ter isso é preciso é pegar alguém o que não é o caso nos últimos muitos tempos) e sou limpinha o suficiente pra não ter micoses, uso camisinha por outros motivos que, esses sim, são impróprios pra se falar num blog.
Pois bem.
Caiu um toró daqueles típicos de março aqui na capital federal e eu fui pra casa ouvindo meu cd de pagodes paulistanos quinta catê.

Cena 02
Dia seguinte, você na sua cama quentinha, a chuva caindo e você ouve ao fundo o Bom Dia Brasil.
Seu pai vem te sacudir como faz todo santo dia de manhã, como se você fosse uma tequileira e fala algo tipo ‘eaê, bora acordá?’ mas você prefere fingir que ouviu um ‘bom dia’ carinhoso e levanta da cama.
Olhada básica no espelho: roxos na sua poupança e marcas de dentes na sua coxa.
Você segue sonolenta para o banho, ouvindo a voz da Miriam Leitão ao fundo e sentindo cheiro de ovo frito matinal.

Cena 03
Depois de desatolar seu carro da lama fofa do seu quintal, você nota que o carro do seu pai não pega, não funciona, desmaiou, afogou, morreu ou algo assim.
Você então se oferece pra deixá-lo no trabalho, só por educação mesmo porque seu super-pai trabalha de um lado da cidade e você de outro.
Mas ele não se manca e aceita a carona.
Ok.
[ironia] Em Brasília o trânsito flui muito bem, mesmo nas chuvas, então vâmo nessa. [/ironia]

Cena 04
Ao sair da sucursal da margem do rio Tietê em que se transforma o seu condomínio na época da chuva, você e seu pai dentro do seu corsinha porpurinado avistam sua vizinha tentando colocar as duas filhas dentro do carro pra ir pra escola.
O carro da sua vizinha, sim, estava afogado. No buraco. Bem de bico. Com a parte do radiador (eu sei o que é um radiador, rá, rá! Não que eu saiba pra que ele serve, mas esse é outro assunto) afundado na água.
Então você pensa: ‘vou oferecer carona, só por educação’. Olha pro banco do passageiro, vê seu pai segurando no puta-que-pariu do seu carro enquanto coloca no rádio do SEU carro o cd ‘Leandro canta o melhor do Brega’, porque ele quer te mostrar ‘o que é música boa’. Então logo desiste da idéia, porque sabe que as pessoas não costumam entender quando você oferece carona SOMENTE por educação.

Cena 05
Você se entrete com todas essas sinapses acontecendo no seu cérebro e quando você dá por si, as duas bonequinhas (de 3 e 8 anos, respectivamente) já estão dentro do carro. Com os pés lameados no seu carpete cuidadosamente aspirado por você mesma no fim de semana. Porque madre Tereza de Calcutá só fazia caridades porque não tinha carro.

Cena 06
Crianças de oito anos lêem tudo que vem pela frente. O seu carro, quem te conhece sabe, parece um container ambulante do SLU: propagandas de planos de saúde, de espíritas videntes que fazem amarração pro amor (nunca se sabe, ué!), bulas de remédio, extratos de cartão de créditos, embalagens do mc donalds e todas aquelas coisas cheias de letrinhas que levam crianças de oito anos a quererem soletrar e crianças de três anos a colocarem na boca.
A questão é que crianças de oito anos soletram tudo em voz alta. Isso nem seria assim um probleeeeeeeeema, se não fosse o Leandro cantando o melhor do brega ao fundo.
Porque nada está tão ruim que não possa piorar.

Cena 07
Eis que você olha pelo retrovisor, porque trânsito em dia de chuva é pesado e nem só pra retocar o gloss serve aquele espelhinho no meio do teto do carro.
A desenfeliz de três anos está lá, lambendo com vontade alguma embalagem de alguma coisa que você não consegue identificar porque tem um grau de astigmatismo em cada olho.
Então de repente, não mais que de repente, a outra criatura de oito anos pega o tal papel e começa a ler, em voz alta:
‘lar-gu-ra-cin-quen-ta-e-dois-ême-ême-só-a-brir-na-ho-ra-de-usar-não-ex-por-a-luz-so-lar’.
Todas as suas luzes de alerta interno começam a piscar desesperadamente, enquanto seu pai, que até agora não teve coragem de soltar o puta-que-pariu do carro porque sabe o quanto você dirige mal, cantarola de forma desafinada e quase insuportável algo tipo ‘Conceiçããããão, eu te conheço muito beeeeem’.

Cena08
Você começa a rezar pra nossa senhora da bicicleta amarela pra que aquele papel não seja o papel que você está pensando que é.
Mas quando a fela-de-uma-égua resolve ler o outro lado da embalagem, você tem certeza:
‘Pre-ser-va-ti-vos-lu-bri-fi-ca-dos-an-ti-a-lér-gi-cos-vi-de-ins-tru-ço-es-de-u-so-no-ver-so’
Você olha pro seu pai num desespero digno de qualquer coisa muito desesperadora que eu não consigo imaginar agora e fala, num tom de quem está tranqüila e calma: ‘muito bom esse cd, heim, pai? Aumenta, aí pra gente curtir esse som da pesada. Criatura de oito anos, cala a boca, estamos ouvindo música da boa! Humpf.’
Seu pai, mais desligado do que rádio na hora da voz do Brasil, fica todo orgulhoso, você chega na escola das criaturas, limpa a boca da menor que tá toda lambrecada de lubrificante e todos vivem felizes para sempre.

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