A VERSÃO OFICIAL DOS FATOS

por Kritz

Eu tava assim sentada, tomando um garrafão de vinho daqueles bem docinhos e baratos. Porque vinho bom é vinho doce e vinho doce é barato. Eu sou pobre e tenho gostos que cabem no meu bolso.
E tinham uns amigos meus em volta falando bobagem e tocando violão e eu me levantei pra fazer xixi. Porque sou mocinha e mocinhas fazem xixi. E eu estava bêbada e álcool é diurético. Então as mocinhas bêbadas acabam fazendo xixi toda hora.
E numa das 752 vezes que eu levantei pra ir pro banheiro, como já tava tontinha que só, eu apoiei a mão na perna dele, pra conseguir levantar. E ele olhou bem pra mim e a minha boca secou. ‘Claro, vinho seca a boca das pessoas’, eu pensei.
Eu fui lá no banheiro fazer xixi e aquela cena de ele me olhando e mostrando as covinhas ficou se repetindo na minha cabeça. Ah, sim, claro, a bagaça da privada não parava quieta e devia estar patético eu rodando pra lááááá e pra cááááá tentando acompanhá-la pra não mijar no chão. E aquilo foi me embrulhando porque tudo girava. Além disso eu tenho um problema muito sério, que é simplesmente não conseguir fazer xixi com barulho. Nenhum barulhinho sequer. Não converse comigo enquanto eu to fazendo xixi. Não converse com ninguém que esteja no banheiro enquanto eu tô fazendo xixi. Não respira, porra, que me tira a concentração! Enfim, você entendeu… E lá fora tava muito barulho: tinha sanfona e violão e 752 pessoas cantando coisas tipo ‘Boate Azul’ (juro!) muito desafinadamente, enquanto eu me equilibrava tentando não encostar a poupança na privada (mulher bêbada sofre, credo!), um martírio.
E eu voltei pro meu lugar na roda, continuei tomando meu vinhozinho barato amarradona. E o tal do menino sentado ali do meu lado, contando casos da vida dele e eu, que já tenho o riso fácil, bêbada e abestada fico parecendo uma hiena.
E ele me levou pra um forró mesmo sem dançar absolutamente nada. Na verdade eu fiquei com medo de ir porque pessoas bêbadas são sinceras e aquela não era uma ocasião pra eu ser sincera, analisando friamente. E se eu que já sou sincera até demais estando sóbria, completamente bêbada ia fazer bobagem, eu me conheço. Então eu quis fugir, claro, porque já conhecia aquela sensação. Mas uma amiga me puxou no canto, apertou essas bochechas grandes e rosas que eu tenho e me ameaçou, dizendo: ‘se você fugir hoje de novo eu nunca mais devolvo a sua garrafa de Tequila José Cuervo’. Como José Cuervo é coisa séria, daquela vez não tinha pra onde eu fugir.
Ele realmente não dançava nada de forró, graças a Deus! Porque se ele me rodopiasse eu ia vomitar Cantina da Serra no chão da boate e seria o meu fim! Naquele momento, confesso, ele não dançar forró não era o maior defeito da via Láctea. Na verdade ele poderia não ter uma das pernas que eu não me importaria. (Tá bom, tá bom, essa parte é mentira.)
Eu sentei no sofá da boate e ele sentou do meu lado. E eu fiquei sem saber o que fazer com as mãos. Bêêêêbada do jeito que eu tava, meniiiiiiiiina do jeito que eu sou.
E aí que a minha amiga teve que ir embora e ia me deixar lá, SOZINHA. Sozinha, sozinha, só eu e minhas vontades todas. Eu fui no banheiro e rezei pra nossa senhora da bicicleta amarela pra me impedir de fazer qualquer bobagem. Desde então desconfio seriamente de que essa santa seja surda.
(continua…)

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