DA SERIE: VOCÊS NÃO VÃO ACREDITAR MESMO…

por Kritz

Ia dizer que fui parada numa blitz e que o seu guarda quis ver o documento do meu corsa porpurinado.
Como o documento não estava comigo (claro que não, uma pessoa com 752 bolsas não consegue estar sempre com o documento do carro) ele disse num tom de quem conta história de terror que ia levar meu carro pro depósito do DETRAN.

Pára tudo.
Meu corsinha porpurinado que não tem mais calota de tanto que eu cato guia? Meu corsinha porpurinado com um amassado no capô de tanto que eu deixo ele solto no meio da rua e as pessoas empurram pra lá e pra cá?
Meu corsinha porpurinado que me nunca me deixou na mão nos cavalinhos de pau na Esplanada? Meu corsinha porpurinado companheiro de aventuras?
JAMAIS!
Era mais fácil uma vaca voar e eles levarem a minha mãe do que aquele guincho do DETRAN amarelo ovo de sirene barulhenta levar meu carrinho. Nem que pra isso eu precisasse simular um ataque histérico.

E foi o que eu fiz.

Num tom de desespero eu disse que a prima da irmã da tia da vizinha do fim de mundo onde eu morava tinha câncer na raiz do dente ciso e que, por isso eu não podia ficar sem o carro.

Eles me olharam com cara de “já ouvimos caôs melhores” e eu vi que ia precisar jogar pesado.

Então comecei a chorar.
Chorar, chorar.
Chorar muito.
Chorar escalafobeticamente. Fui pensando em coisas tristes que já tinham acontecido na minha vida e que poderiam me ajudar a fazer daquele momento uma coisa bem “the Oscar goes to…”: aquele gol de barriga do Renato Gaúcho que fez o Flamengo perder o campeonato carioca pro Fluminense, a eleição de Garota Simpatia que eu perdi pra guria mais metida da 4ª série, só porque ela tinha peitos e eu não, o dia que meu pai me deu uma lapiseira pentel de aniversário (e nada mais que isso), o dia que eu deletei o meu trabalho final da minha máquina sem salvar, faltando 40 min pra a entrega, coisas assim… Porque, afinal, eu precisava parecer convincente.
E quanto mais eu chorava mais aquele bando de PM ia ficando desesperado. Porque vocês sabem, homens matam baratas e abrem vidro de azeitona, mas não sabem o que fazer quando uma mulher chora. E eu vou te dizer que eu chorei muito, chorei mesmo, e gritava e fungava e pedia pelo amor de Deus!
Alguns deles foram se comovendo, coitados, eu percebi. Já não conseguiam mais olhar pro meu nariz vermelho e catarrento e cochichavam entre si.
O mais durão, não sem antes manter a pose de durão por bastante tempo, acabou cedendo. Disse que pela força da lei tal, inciso sei lá das quantas, poderia me deixar ir, mas que eu seria multada de qualquer forma, porque quanto a isso ele não poderia fazer nada. Acho que esse teria sido o momento certo de eu fazer uma proposta de propina, mas não tinha dinheiro nem pro flanelinha.
Ele se despediu com um aperto de mão, desejando melhoras pro ciso da prima da irmã da tia da minha vizinha e todos vivemos felizes para sempre.

E foi isso.
Podem me chamar de mentirosa agora.

Anúncios