NO MÊS DE JULHO DO ANO DA GRAÇA DE MIL NOVECENTOS E EU ERA VIRGEM

por Kritz

Eu ia casar virgem, sabe? De verdade, e isso em nada tinha a ver com religião.
Na verdade era até um pouco hipócrita, porque eu só era virgem mesmo, porque de pura e casta, meu filho, não tinha mais nada.
E aí um dia eu acordei e mudei de idéia. E fui bater lá na casa do cara.
Claro que não cheguei lá e disse “bom dia, vou dar pra você hoje” porque naquela época eu não era tão direta e cara de pau quanto sou hoje, mas foi pra isso que fui lá.
Talvez eu estivesse com medo de o mundo acabar no bug do milênio e eu morrer assim, intacta, virgem, cabaça.
Ele tinha roubado um preservativo aroma morango (argh!) do supermercado no dia anterior, porque o coitado também devia estar cansado de tanto lenga-lenga, mas não quis parecer abusado e comprar logo um pacote inteiro. Ou talvez não tivesse grana. Ou talvez não quisesse me pressionar. Ou então estava planejando de me pegar de jeito qualquer dia e sabia que eu gostava de morango.
Tá, eu gosto, mas não pra camisinhas. Enfim, divago.
Sei que eu dei na escada do prédio dele, em pleno meio dia! Foi totalmente sui generis, engraçado, bonitinho, legal, foi bem fofo.
Não, não teve vela, nem vinho, nem cama macia e doeu que só. Doeu na terceira vez, porque nas duas primeiras o cara broxou.

ABRE PARÊNTESE
Os caras sempre broxam comigo, isso é uma coisa engraçada, estranha, sei lá, eu fico puta, fico brava, me irrita, não consigo ser compreensiva com certas coisas. Eu na verdade não consigo ser compreensiva com nada, falando honestamente. Eu logo fico indignada e quero ir embora. No fundo eu fico mesmo é com vontade de perguntar porque foi que o cara tentou tirar minha roupa se no final não ia dar conta, mas que merda!
Enfim, sou tosca.
FECHA PARÊNTESE

Naquele dia eu não fui tosca porque pra mim tudo era muito estranho e novo e a expectativa era grande pra mim. Ouso dizer que se eu tivesse um bilau ele teria murchado também. Além do que aquele cheiro de morango tava me enjoando deveras. E se apoiar nos degraus de uma escada, se você nunca viveu coisa assim, confie em mim, não é assim o que se possa chamar de supra sumo do conforto.
O legal da primeira vez (era a minha e a dele também) é que você não sabe quando acabou. Mas eu fiquei me sentindo a garota mais amada, mais querida, mais protegida, mais importante do mundo, mesmo tendo celulite, uns quilos a mais e não tendo a menor experiência em nada daquilo.
A sensação que eu sentia de que ele também não sabia o quefazer com as mãos me deu muita segurança e a gente riu. Riu, riu muito.
E se abraçou e jurou amor eterno. E a gente ia noivar quando o segundo grau acabasse e a nossa aliança de compromisso era a mais legal de todas que a gente tinha visto, porque tinha sido feita à mão por um hippie amigo nosso e todo mundo sempre ficava com inveja, porque ela era mesmo muito linda, muito diferente e tinha custado várias das nossas mesadas de adolescentes apaixonados.

E lá se vão seis anos.

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