MEU PÉ QUEBRADO II, a missão

por Kritz

Namorado chegou.
Eu apertei muito, beijei muito abracei muito e blábláblá mimimimi, e deixei ele absolutamente fora da área de cobertura por umas setenta e duas horas, sem atender celular ou encontrar os amigos, sem nem levantar da cama, coitado. A não ser para banho e necessidades físicas. Líquidas. Porque as sólidas demoram demais.
E ele, pra se vingar, trouxe tesoura de jardineiro e um alicate de cortar fios elétricos pra tentar arrancar meu gesso.
À força, contra a minha vontade, sem que eu quisesse, se é que você me entende.
Ele quase furou o meu mocotó desse osso aqui da canela, umas 752 vezes, com a minha tesourinha de cortar unha, já que todo aquele aparato que serviria pra aparar a grama de um estádio de futebol inteiro, pasmem!, não cortava atadura molhada.
Mas a pior parte não foi essa.
Nem foi ver que a minha perna tava mais cebeluda que a do meu pai e mais fina do que… a do meu pai.
Nem foi ouvir um esporro do médico porque tirei o gesso antes da hora.
Nem ver que eu tinha escolhido a pior hora pra ir no médico, já que a Ana Maria Braga tava ensinando a fazer pão de mel e eu não tinha uma canetinha pra anotar a receita.
A pior parte foi olhar pra radiografia e ver lá, direitinho, o meu maléolo rachadinho, exatamente no mesmo lugar de antes, depois de quarenta (tá bom, trinta e sete!) dias carregando um pé engessado pra lá e pra cá.
Meu mundo caiu (e eu tomei bastante cuidado pra que ele não caísse bem em cima do meu tornozelo) e eu me senti tão sozinha quanto o Chaves naquele episódio em que todo mundo da vila vai pra Acapulco, deixando o coitado chutando lata lá no pátio, do lado do barril.
Mandei o médico tomar no cu Disse “te vejo em trinta dias” pro seu dotô e fui embora.
Enquanto esperava o elevador, chorando em bicas, a recepcionista perguntou quem tinha morrido se eu tava me sentindo bem. Eu disse que estava muito chateada e chuif, chuif, buá, buá, buá e essas coisas que só as mulheres entendem. Ela me trouxe meio litro de água com açúcar e disse que eu deveria tomar até parar de chorar.
Parei.
Não que eu não estivesse mais triste. Mas é que água com açúcar embrulha o estômago e eu já tava me sentindo um confeito. Se não parasse de chorar ia acabar vomitando bem aqui, ó, no meu pé inchado.
Juro.

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