DA SÉRIE: VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR MESMO!

por Kritz

Hoje teve treinamento para situações de necessidade de evacuação do prédio abandono da edificação que eu trabalho.
Tipo: se algum infeliz daqueles, que insiste em fumar perto do arquivo, botar fogo em tudo e lascar a gente, ou algum colega de boa alma simular uma bomba no prédio na sexta-feira, onze horas da manhã, e formos todos obrigados a descer apertadamente pela escada de incêndio rumo a um fim-de-semana-quase-prolongado, ô, lelê.
Eu trabalho num prédio que comportaria, com pouco conforto, duas mil e quinhentas almas e seus respectivos corpos que vieram do pó e ao pó retornarão.
Mas habitam neste edifício de 21 andares nada mais do que cinco mil viventes, veja só você!
A estrutura dele não agüenta um helicóptero no heliporto, inutilmente localizado no teto do prédio, e os carros de bombeiros não conseguiriam se aproximar do prédio sem antes afundarem rumo à garagem subterrânea indevidamente localizada no subsolo, claro, porque garagens subterrâneas costumam se situar nos subsolos, me corrijam se eu estiver errada.
Não bastasse toda essa desgraça disfarçada de prédio, local do meu trabalho como disse ali em cima, eu estou com o pé quebrado.

Pausa.
Mencionei que trabalho no 15º andar?
Então.
Que conste mencionado, aí, meu camarada.

Descer 15 andares já seria por si só uma tarefa um tanto quanto aeróbica, desgastante, cansativa para um ser sedentário como eu.
Pra que tudo ficasse um pouco pior, Murphy operou tudo pra que a bagaça da simulação acontecesse enquanto eu, a manca que vos escreve, ainda estivesse manca.
Chamei o brigadista no canto e apontei pra minha canela imobilizada, dizendo que não poderia participar da simulação.
Os olhos dele brilharam.
O pânico tomou conta do meu ser.
Ele disse que tínhamos no andar o exemplo de algo que poderia acontecer no dia do sinistro, como alguém manco, por exemplo.

Pá: Todas as cento e dez pessoas olharam pra mim. E pro meu pé imoblizado na seqüência.
Puta que me pariu de cócoras, fodeu! Eu pensei assim, desse jeito, porque sou uma lady.

O procedimento é muito simples – prosseguiu o brigadista de macacão amarelo-ovo – se houver dois brigadistas a gente faz assim:

Pá: Surgiram dois brigadistas com o mesmo macacão fashion e se posicionaram bem NO MEIO de todo mundo. Os braços deles se entrelaçaram tipo cadeirinha. E o brigadista-mor gritou meu nome daquele jeito que só os militares sabem gritar.

Puta que me pariu de cócoras, fodeu! – versão reloaded eu pensei novamente, bem leidemente.

O tal me colocou na cadeirinha e simulou por alguns passos como seria o transporte de um ser debilitado se o prédio tivesse pegando fogo.
Mico? Que nada, meu filho, o pior ainda estava por vir. Eu fui saindo de fininho tentanto esconder os fundos, porque estava de saia, quando o brigadista mor gritou:

Maaaaaaas –
e eu com um frio na espinha, vermelha de vergonha como um gringo ao sol do meio dia – se só tivermos um brigadista disponível, adotamos o procedimento de lançamento ao ombro, e…

Lançamento ao ombro… Lançamento ao ombro…
Não, você não entendeu errado.
O procedimento de lançamento ao ombro consiste em pegar o moribundo e, bem… lançá-lo ao ombro, se é que você me entende.

Alguém lembrado de que o moribundo, no caso, era uma moribunda, de saia?
Alguém? Alguém?

Um cara de macacão amarelo do tamanho do Sloth de Goonies me pegou como se eu fosse um saco de soja e, voalá! Me lançou ao ombro.
E eu fui humilhada na frente dos meus colegas de trabalho e todo mundo deve ter visto a minha calcinha.



E foi isso.

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