Tá Pensando o Quê?

Mês: outubro, 2009

um alô pro meu filho

Prezado filho

Me disseram que a partir de agora você ouve coisas. Tipo meu intestino funcionando, meu fígado soltando liquidos, essas coisas. Isso me fez entender porque bebês nascem chorando: ouvir esses barulhos por tanto tempo deve ser bem chato. Me desculpe, mas a fisiologia tem dessas coisas.
Você tem dois avôs. Um deles não me apresenta pelo nome, só informa que estou grávida de 5 meses, cheio de orgulho, e pronto. O outro se exibe como um pavão e agora me liga todo dia, coisa que ele não fazia nem durante minha adolescência frenética. Isso me faz compreender que fui resumida a uma carregadora de bebês. Ok, eu também me orgulho.
Todo dia me assusto com o tamanho do bucho. E quando você mete a mão ou o pé na minha cicatriz de apendicectomia a sensação não é mesmo das mais gostosas. Mas prometo parar de reclamar se você nunca mais chegar perto do meu umbigo. Pelo menos não de dentro pra fora, porque isso me dá vontade de arrancar o umbigo fora. Igualmente desagrádavel, eu quis dizer.
As pessoas agora cumprimentam você antes de falarem comigo. E chegam botando a mão na barriga como se fosse algo separado de mim, tipo uma invasão do espaço a mim reservado, sabe como? Este é o momento em que treino minha classe e minha cara de paisagem.
Seu pai, todo santo dia, diz pra você tomar conta de mim, um discurso que simboliza o paradoxo do nosso tempo. Ou o quanto eu tenho menos juízo do que um feto de 5 meses.
Estou ansiosa pela próxima ecografia, porque tá rolando um movimento de dúvida sobre a sua sexualidade. E digo isso com todo respeito, prezado filho. Mas querem conferir o que você tem no meio das pernas e eu sinto vergonha por você nessas horas. Até porque você mesmo se arreganhou todo e, pelo menos pra mim, não deixou dúvidas.
Gostaria muito que você mesmo escolhesse seu time de futebol, mas não conte isso pro seu pai. Pode dar divórcio. E todos queremos uma família unida, até porque é ele quem vai te colocar pra arrotar de madrugada. Mas deixe isso entre nós também.
Notícias sobre o mundo extra-útero seguem depois.
beijomechuta.

Anúncios

passado suspeito

Entro no 5º mês de gravidez na semana que vem. Na chamada 20ª semana, falando na língua e na contagem das grávidas. Como a gravidez completa é de 40 semanas, tô no meio do caminho. Louvemos ao Senhor pela tranqüilidade da gravidez até aqui: eu não soube o que é enjôo. E meu filho, já sem compostura ainda na fase inside, mostrou logo que era um menino, assim, pronto acabou.
O 1º trimestre (que acaba não correspondendo exatamente a 3 meses, uma coisa muito louca que só os maias poderiam explicar) é esquisito e tenso demais porque a gente, inexplicavelmente, se lembra das aulas de biologia genética do 2º grau. Dá muito medo e, em alguns momentos o sentimento de incompetência bate bem forte. E a gente se aproxima de Deus, prometendo qualquer coisa só pra garantir que o rebento tá de boa. Promete não comprar mais DVD pirata. Promete parar de falar palavrão. Promete não comer nada com glutamato monossódico.
E o parto, né Brasil? Ainda tem o parto. Queria pular essa parte. Dormir e acordar com o moleque embrulhado, pronto pra mamar. Ainda não internalizei a possibilidade de me cagar toda na hora do parto. Não mesmo.
Este blog nunca foi sobre gravidez. Não começou por isso. Então eu pergunto: quando ele crescer eu mostro ou não mostro?
Eis uma das dúvidas nobres que permeiam a maternidade no mundo cibermoderno.
Oremos.

youtube is not a friend

Eu gosto das informações informais sabe como? Eu curtia ‘Aqui Agora’ porque era tão real, mas tão real, que parecia tudo armado. A idéia de enxergar gente como a gente e poder deliberar e refletir sempre me atraiu, por isso fui viciada em Big Brother por muitos, muitos, muitos anos. Até que eu me casei e resolvi que não é confortável ficar assistindo marido olhar bundas alheias.  Então na hora do Big Brother eu leio. Ou durmo. Porque ler é melhor do que pedir o divórcio.
Com base nisso tudo, entrei numas comunidades de grávidas no orkut. Tudo corria bem até que resolvi seguir a sugestão de uma colega e olhar os vídeos de partos no youtube.
Pátria amada! Onde foi que eu assinei que queria parir daquele jeito? Não me lembro da audiência com o Divino em que falei ‘ok, Deus, topo demais ver um melão sair pelo buraco por onde passa assim, no máximo, uma uva, nasci pra isso’. Respeito demais a mulherada que topa muito o parto mais natural possível, mesmo achando que às vezes tem gente que defende o parto normal como se fosse um xiita e eu ache isso muito esquisito. Eu mesma preferia o parto normal. Preferia. Até ver o vídeos. Hoje eu não prefiro nada. Porque cesárea também não é bonito de ver, não, Brasil. Então eu escolho virar um canguru nos próximos meses. Assim eu carrego meu filho numa bolsa de pele do nativo australiano e, na hora que ele tiver formado, eu levo pro médico e pronto. Muito mais fácil. Tenho certeza que foi isso que combinei com o Divino e agora ele tá querendo me dar o golpe. Papai do Céu é meu brother, mas às vezes me dá muito trabalho.

o sofrimento de uma gestante bem resolvida

Hoje eu fui fazer um exame de sangue de rotina, para medir minhas reservas de vitaminas e essas coisas que eu sempre achei que quanto mais eu tivesse no corpo, melhor. Ou que o excesso sairia no xixi e pronto, eu seguiria a minha vida sempre vitaminada e reluzente. Mas não, até pra isso existe limite, pátria amada.
Daí dirigi a minha pessoa recheada de ácido fólico e vitamina B12 para o laboratório. E laboratório é laboratório, né, Brasil? Sempre lotado, porque a gente gosta mesmo é de fazer exame, levar pro médico nem tem importância. Há um tom sisudo a frase “vou me atrasar pro trabalho porque tenho que fazer uns exames”. Fora as pessoas que usam o exame como desculpa pra faltar trabalho, mas esse é outro assunto.
Então que o laboratório tava lotado e em laboratórios existe a senha-preferencial-fura-fila-cintilante. E eu não tive dúvida. Foi o momento em que eu vi que existem ambientes que reconhecem o quão adoradas deveriam ser as fêmas humanas prenhas. Até o barulhinho do apito pra chamar os preferenciais é diferente, por aí já temos uma boa base da importância da parada, vocês hão de concordar.
E é lógico que nesse laboratório lotado havia uma criatura sem-mãe. Filho de chocadeira ou, pelo menos, nascido a forceps. Porque não interessa o quanto seu ciático dói, o quanto sua barriga começa a pesar, o quanto seus pés têm inchado e quanto tempo você terá que esperar pra vestir sua calça jeans manequim 38 da forum de novo: sempre haverá um ser de alma suína que acha que, não, você não está grávida. Só está com aquela bata de bojão de gás pra furar fila em laboratório. Ou porque você gosta de ver uma manada inteira de seres humanos te olharem enfurecida porque você pode, legalmente, furar a fila. Porque, sim, você pode entrar justamente na frente daquele ser, uma pessoa que ficou com sequela do forceps e, claro, um homem. Porque mulheres são terríveis e nervosinhas, mas na gestação todas se unem, porque pensar na dor do parto e na humilhação de não conseguir controlar seu próprio intestino na hora da força da parição alimenta a compaixão até das que não querem saber desse negócio de visita da cegonha.

%d blogueiros gostam disto: