o sofrimento de uma gestante bem resolvida

por Kritz

Hoje eu fui fazer um exame de sangue de rotina, para medir minhas reservas de vitaminas e essas coisas que eu sempre achei que quanto mais eu tivesse no corpo, melhor. Ou que o excesso sairia no xixi e pronto, eu seguiria a minha vida sempre vitaminada e reluzente. Mas não, até pra isso existe limite, pátria amada.
Daí dirigi a minha pessoa recheada de ácido fólico e vitamina B12 para o laboratório. E laboratório é laboratório, né, Brasil? Sempre lotado, porque a gente gosta mesmo é de fazer exame, levar pro médico nem tem importância. Há um tom sisudo a frase “vou me atrasar pro trabalho porque tenho que fazer uns exames”. Fora as pessoas que usam o exame como desculpa pra faltar trabalho, mas esse é outro assunto.
Então que o laboratório tava lotado e em laboratórios existe a senha-preferencial-fura-fila-cintilante. E eu não tive dúvida. Foi o momento em que eu vi que existem ambientes que reconhecem o quão adoradas deveriam ser as fêmas humanas prenhas. Até o barulhinho do apito pra chamar os preferenciais é diferente, por aí já temos uma boa base da importância da parada, vocês hão de concordar.
E é lógico que nesse laboratório lotado havia uma criatura sem-mãe. Filho de chocadeira ou, pelo menos, nascido a forceps. Porque não interessa o quanto seu ciático dói, o quanto sua barriga começa a pesar, o quanto seus pés têm inchado e quanto tempo você terá que esperar pra vestir sua calça jeans manequim 38 da forum de novo: sempre haverá um ser de alma suína que acha que, não, você não está grávida. Só está com aquela bata de bojão de gás pra furar fila em laboratório. Ou porque você gosta de ver uma manada inteira de seres humanos te olharem enfurecida porque você pode, legalmente, furar a fila. Porque, sim, você pode entrar justamente na frente daquele ser, uma pessoa que ficou com sequela do forceps e, claro, um homem. Porque mulheres são terríveis e nervosinhas, mas na gestação todas se unem, porque pensar na dor do parto e na humilhação de não conseguir controlar seu próprio intestino na hora da força da parição alimenta a compaixão até das que não querem saber desse negócio de visita da cegonha.

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