Tá Pensando o Quê?

da série: a inveja é a arma do pobre

É lógico que voaram ratos mortos virtuais em mim porque não engrossei o discurso da maternidade cheia de poás rosas. Lógico. Porque o povão gosta é de ser enganado. No entanto, convenhamos: minha vida não é novela de Manoel Carlos e aqui, caro leitor amigo, não é tudo perfeito, não.
Só que eu resolvi mudar a linha de pensamento e não mais sentir ódio da Cláudia Leite mostrando a barriga de tanquinho 15 dias depois de parir. Vocês sabem que eu sinceramente não acredito que ela tenha acordado UMA NOITE SEQUER pra embalar o filho dela com cólica, mas isso não é motivo pra odiar ninguém. Até porque, se eu pudesse teria alguém pra fazer isso por mim. E a abnominoplastia pós parto que ela fez eu apóio. Se soubesse teria feito também. E não riam que eu falo sério. E se você não tem filho, ziper na boquinha. Deixe para emitir sua opinião cheia de julgamento quando chegar a sua vez.
No fundo meu ódio por ela, Cláudia Leite, está no fato de que ela faz com que eu me sinta ainda mais baranga do que estou(temporariamente, claro) porque não caibo nas minhas claças 40 três meses depois de meu filho ter nascido. E três meses equivale a 50 anos no mundo das celebridades, uma contagem de tempo que só vale pra quem frequenta a Ilha de Caras.
Então que agora eu deixei de ter ódio e vou passar a ter compaixão. Tipo compaixão da Adriane Galisteu, que está em repouso absoluto e não pode fazer sexo até o bebê nascer.
Quando li isso na capa da revista de fofoca imediatamente prometi pra nossa senhora das muleres grávidas e paridas não mais reclamar das azias loucas e frenéticas na madrugada que eu tive. E do desejo de comer pequi. Pequi, meu Brasil!
Mas essa é outra história.

o balanço dos sessenta dias

Pois então. Vou começar dizendo que não entendo quem tem mais de um filho. Pelo menos não quem tem mais de um filho por opção. Ter filhos trata-se de uma tarefa muito complexa e impossível de descrever completamente, entre outras coisas. Só por isso eu já devo dizer que me soa muito esquisito alguém dizer ‘a gente esquece do perrengue e resolve ter outro’. Eu não pretendo ter. E que ninguém tenha a idéia malévola de guardar esse post contra mim. Obrigada.
E que não me venham as xiitas da maternidade me encherem a paciência. Porque eu acho uma puta hipocrisia fedida ninguém dizer o quão difícil é o lance da maternidade. Todo mundo só fala do universo cor de rosa (ou azul bebê, porque até pra isso há convenções…) que é ser mãe. E não é tudo rosa NÃO. Tem momentos bem negros, pra ser sincera. Porque eu falo mesmo, né Brasil? Vocês sabem.
Mas é lógico que tudo vai passando. Os hormônios vão voltando pro lugar e mesmo com a cinta PP vestindo um corpinho XG a gente começa a se reconhecer de novo, não sem deixar de lado aquele pavor de que nunca mais na vida terrena a gente entre novamente no nosso jeans tamanho 40.
Acho também que as coisas vão ficando um pouco mais interativas com o filhote. Até os 2 meses o baby mais parece um passarinho: muito bonitinho, mas só come e faz cocô.
Ter filhos eu recomendo, mas digo com tranquilidade: você definitivamente não sabe o que está fazendo.

já chegou o disco voador!

Agora eu sou mãe. Uma mulher parida, andando devagar pela casa com chinelinho de vovó. Tem um bebê na minha casa. Saiu da minha barriga. Reconhece minha voz e meu cheiro. Pátria amada, não importa o que já tenham dito a respeito de quão maluco é estar nessa situação, vocês nunca saberão até viverem.
Acho que esse negócio de ter bebê aproxima a gente de Deus. A gente fala com Deus o tempo todo. Pede sugestão, ajuda, implora pra Deus cuidar pra sempre do pequeno. E a gente fica com raiva do mundo. Das coisas erradas, das pessoas esquisitas, de quem não é bom.
Cansa. Cansa sim. E a gente fica chorona. Eu chorei quando vi meu filho ter uma crise de soluço, porque não tinha o que eu fazer. E chorei no teste do pezinho. Tenho medo de me tornar uma mãe assassina, que trucidará todo mundo que fizer mal ao filho, sabe como?
Nasceu meu filho e nasceu também, sem dúvida, uma nova Kríscia. Vamos aguardar.

um novo tempo começou pra mim agora

Pronto. Agora estou de licença-maternidade, porque não dava mais, Brasil. Esse calor típico de sucursal do inferno, a experiência de ver meus sapatos preferidos simplesmente dizerem ‘não quero’ quando tento calçá-los, o sono que não passa e a necessidade que sinto de alugar um guindaste pra me levantar da cama e das cadeiras (ou de me jogar e rolar pra não ter que caminhar) me fez resolver por aderir à licença antes mesmo do rebento vir chorar no meu ouvido. Agora poderei passar o dia de top e cueca samba-canção, tenho várias muito estilosas porque eu sou glamour, mas não abandono a causa.
E preciso testar empregadas domésticas. Eu, que não sei mandar ninguém fazer nada, vou precisar passar a ladainha pra coitada, todo santo dia, sobre roupas bem passadas, comida saudável e outras coisas que eu definitivamente não domino.
Que medo, pátria amada. Vai ser engraçado.

xô te contar

No fds que vem vou lá no estudio tirar fotos barrigudas. Tudo com o devido photoshop que eu obriguei o fotógrafo a colocar no contrato, claro, porque sou safa.
Vocês têm que ver a cara com a qual eu acordo alguns dias… Parece que eu dormi 3 dias seguidos, fico com um nariz de biloca. Mas isso é mó besteira, eu tô tendo uma gestação tão de boa que tenho que me pegar nessas coisas idiotas pra reclamar.
E um dia desses tive desejo de comer pequi. Pequi, um negócio do qual eu não gosto, que tem cheiro de peido. Comi até entalar, na panela mesmo.
Vai dando uma canseira, né? Entrei na 30ª semana, ou seja: faltam no máximo 10 semanas, a maior contagem regressiva da minha vida. A natureza é engraçada, acho que o desconforto chega já pra gente querer que o bebê saia logo. Porque pensa bem: se fosse legal carregar o bucho pra sempre, a gte nunca ia querer parir. Mas eu tô a fim de ver meu filho, interagir, ver a nova fase chegar de fato. Umbigo mole, cólicas, cocô vazando na colcha de piquet. Acho que tudo isso é melhor do que a vontade que eu tenho de me jogar no chão e rolar em vez de caminhar. Porque eu tenho vergonha de dar pinta de pata por aí, na frente de geral.
Eu falo, né, Brasil. Vocês sabem que eu falo mesmo.

eu pareço um carrinho de pipoca

Pronto. Agora eu entrei no 7º mês. A gravidez dos humanos é de 10 meses, veja só você. Por isso grávidas contam a gravidez em semanas, eu acho. Porque se não for assim, a gente entra no 9º mês e fica todo mundo perguntando se a gente tá grávida de um burro, porque gravidez de burro dura mais de 10 meses. Pelo menos é o que diz o povão.
Ó, votecontá que gravidez cansa. Ai que canseira, Brasil. Primeiro que eu tomo chutes nas costelas. Ou cabeçadas na bexiga. Aí, eu tô tranquila batendo um papo e vem de repente uma vontade de mijar, fruto do coice que eu tomei. Passa instantaneamente. Ou não, porque ontem fiz xixi na casa inteira até chegar no banheiro.
E tem três dias que não durmo direito.Ai, me deixa com fome, mas não me tira o sono, não, que eu viro bicho.
Então eu pergunto: cadê o romantismo da gestação, pátria amada? Cadê a calma que só a ocitocina traz pra você? Cadê aquela cara lânguida que eu deveria carregar, que nem aquele bando de grávida que já vi na vida.
Cadê? Heim?

coisas que ninguém conta sobre a gravidez

Uma colega de barriga comentou algo, aqui mesmo no blog, sobre a vontade de escrever um livro com esse título. Todo meu apoio, claro. E não que eu seja uma grávida ranheta, Brasil, pelamordedeus. Eu continuo sendo muito gente boa, só que na versão 5 kg mais cheia e com aparência de quem esconde a bola do jogo embaixo da camiseta. De resto, tudo igual.
Por exemplo: minha vontade de atacar pessoas na base da dentada continua aqui, impávida, forte, tenebrosa. Quando eu passo algum momento de muita raiva me sinto uma pitbull prenha, literalmente. No auge da raiva rola um imaginário de eu voando na jugular de alguém e sacudindo a cabeça, sabe como? Mas como não posso fazer isso, me bate a frustração e eu fico com muita vontade de chorar. Coisas que qualquer pessoa sente, de verdade. Só que eu sinto de forma incontrolável.
Por isso eu acho que a licença-maternidade deveria começar antes de o bebê nascer. Legalmente as mães que trabalham tem esse direito, mas nunca têm coragem porque a folga agora significa menos tempo com o rebento quando ele nascer. Mas é que a convivência com pessoas vai ficando difícil e a gente vai desenvolvendo habilidades de odiar pessoas. Eu por exemplo estou odiando o síndico do meu prédio neste momento. É um ódio-tristeza-medo tão grande, mas tão grande que até eu sei que é exagerado. Mais patético que isso, só as minhas tentativas de me acalmar. Como é ridículo. Aí o povo ao redor entra numas de ‘não fica assim que passa pro bebê’. Ai, qui raiva. Ninguém diz ‘não fica assim, vai dar tudo certo, se acalma, releve, cuida da sua vida, pára de frescura’. Não, nada disso. O bebê né? ‘Respira e finja que está tudo bem, porque o bebê tá olhando’. Ai Pátria Amada, vocês me dão muito trabalho. Eu fico com peso na consciência, lógico, porque sou muito suscetível e também porque tomei chutes no umbigo pelo lado de dentro. E lá veio Marido com fones estéreo pra colocar mantras pro bebê ouvir. Eu com dois fones presos no cós do short, coisa linda de se ver. Deveria ter tirado uma foto. Mas a guerra de hormônios, tão mencionada mas tão pouco explicada, já me humilha demais.

algumas grávidas me dão preguiça

“As grávidas ficam lindas”. Pra mim é balela. Sério. Eu não tô inchada nem estou uma baleia. Pelo menos não ainda. Mas já começo a me locomover como um pato e, falando muito sinceramente, às vezes sinto vontade de me jogar no chão e rolar em vez de andar, pela praticidade da coisa. Quando alguém fala pra mim “você tá linda” eu entendo como “você tá ficando esquisita, mas é por uma boa causa e já, já passa”.
Vão voar milhares de ratos mortos em mim pelo que vou dizer agora, mas vou dizer porque defendo a democracia: pra mim, estar grávida está sendo super tranquilo. No fundo eu nem lembro que tô gestante e minhas fichas não caíram. Talvez (?) por isso eu não esteja bancando a fresca nem romantizando o evento. A vida continua (literalmente) e a barriga esticar, além de ser o milagre da vida se concretizando, causa uma dor estranha e bem doída. Mas disso ninguém fala. E que raiva que me dá. Quando fui pro google ontem pesquisar sobre essa coisa esquisita que tava sentindo na pança, ninguém foi capaz de dizer clara e objetivamente que doía, sim, que era estranho e que a tendência é que eu sinta isso ainda por um tempo. As falas são muito frufruzentas e viajandonas. Algo como “sinto minha barriga em conexão com o universo maior e por isso ao senti-la esticar, sei que é a mãe natureza agindo para que eu seja um bom lar para o meu filho. E as estrias serão a marca dessa luta que é privilégio de algumas mulheres vencer.”
Ah, Brasil, tá de sacanagem? Quem é que pede, por favor, que a mãe natureza providencie estrias abdominais? É lógico que eu quero ser um bom lar para o meu filho enquanto ele tá na fase inside, ok? Pelamordeus, que não me venham reclamar as xiitas da maternidade. Mas pra mim, que tava esperando ficar chorona e chata durante a gravidez, acho que até que tô conseguindo manter o mínimo de senso crítico pra detectar o que considero absurdo. Considero mesmo e acabou. Pronto, falei.

um alô pro meu filho

Prezado filho

Me disseram que a partir de agora você ouve coisas. Tipo meu intestino funcionando, meu fígado soltando liquidos, essas coisas. Isso me fez entender porque bebês nascem chorando: ouvir esses barulhos por tanto tempo deve ser bem chato. Me desculpe, mas a fisiologia tem dessas coisas.
Você tem dois avôs. Um deles não me apresenta pelo nome, só informa que estou grávida de 5 meses, cheio de orgulho, e pronto. O outro se exibe como um pavão e agora me liga todo dia, coisa que ele não fazia nem durante minha adolescência frenética. Isso me faz compreender que fui resumida a uma carregadora de bebês. Ok, eu também me orgulho.
Todo dia me assusto com o tamanho do bucho. E quando você mete a mão ou o pé na minha cicatriz de apendicectomia a sensação não é mesmo das mais gostosas. Mas prometo parar de reclamar se você nunca mais chegar perto do meu umbigo. Pelo menos não de dentro pra fora, porque isso me dá vontade de arrancar o umbigo fora. Igualmente desagrádavel, eu quis dizer.
As pessoas agora cumprimentam você antes de falarem comigo. E chegam botando a mão na barriga como se fosse algo separado de mim, tipo uma invasão do espaço a mim reservado, sabe como? Este é o momento em que treino minha classe e minha cara de paisagem.
Seu pai, todo santo dia, diz pra você tomar conta de mim, um discurso que simboliza o paradoxo do nosso tempo. Ou o quanto eu tenho menos juízo do que um feto de 5 meses.
Estou ansiosa pela próxima ecografia, porque tá rolando um movimento de dúvida sobre a sua sexualidade. E digo isso com todo respeito, prezado filho. Mas querem conferir o que você tem no meio das pernas e eu sinto vergonha por você nessas horas. Até porque você mesmo se arreganhou todo e, pelo menos pra mim, não deixou dúvidas.
Gostaria muito que você mesmo escolhesse seu time de futebol, mas não conte isso pro seu pai. Pode dar divórcio. E todos queremos uma família unida, até porque é ele quem vai te colocar pra arrotar de madrugada. Mas deixe isso entre nós também.
Notícias sobre o mundo extra-útero seguem depois.
beijomechuta.

passado suspeito

Entro no 5º mês de gravidez na semana que vem. Na chamada 20ª semana, falando na língua e na contagem das grávidas. Como a gravidez completa é de 40 semanas, tô no meio do caminho. Louvemos ao Senhor pela tranqüilidade da gravidez até aqui: eu não soube o que é enjôo. E meu filho, já sem compostura ainda na fase inside, mostrou logo que era um menino, assim, pronto acabou.
O 1º trimestre (que acaba não correspondendo exatamente a 3 meses, uma coisa muito louca que só os maias poderiam explicar) é esquisito e tenso demais porque a gente, inexplicavelmente, se lembra das aulas de biologia genética do 2º grau. Dá muito medo e, em alguns momentos o sentimento de incompetência bate bem forte. E a gente se aproxima de Deus, prometendo qualquer coisa só pra garantir que o rebento tá de boa. Promete não comprar mais DVD pirata. Promete parar de falar palavrão. Promete não comer nada com glutamato monossódico.
E o parto, né Brasil? Ainda tem o parto. Queria pular essa parte. Dormir e acordar com o moleque embrulhado, pronto pra mamar. Ainda não internalizei a possibilidade de me cagar toda na hora do parto. Não mesmo.
Este blog nunca foi sobre gravidez. Não começou por isso. Então eu pergunto: quando ele crescer eu mostro ou não mostro?
Eis uma das dúvidas nobres que permeiam a maternidade no mundo cibermoderno.
Oremos.

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